Mais uma greve do Magistério estadual gaúcho.
Parece que todos combinam, sim, todos os governadores têm tido prazer em pisotear o magistério. Por que será????
Estamos à beira de perder nosso plano de carreira, por isso...

Poucos Professores cruzam os braços!
"Investir em conhecimentos rende sempre melhores juros" (Benjamin Franklin)
Sou professora há 23 anos, 18 deles no magistério estadual. Sempre tive orgulho de ser gaúcha, de ser professora e de fazer parte de um estado promissor, de gente forte e lutadora. A cada ano, porém, os sentimentos de orgulho estão sendo substituídos por um sentimento sofrido, doloroso de perda de identidade. Foram muitas as formas que levaram-me à perda de identidade: a história da educação pública estadual, o descaso com a profissão em seu di-a-dia, o jogo de palavras com a mídia.
Começou neste final de semana mais uma queda de braço entre o governo estadual e o magistério. O primeiro alegando falta de verba, economia, etc, o segundo tentando se salvar do afogamento. Desde que fui nomeada no magistério estadual, em 1990, tenho assistido e participado de todos os movimentos, nos primeiros com mais entusiasmo e idealismo, mas sempre convicta de que nosso papel na sociedade deveria ser honrado. Participei de muitas greve, (li hoje no jornal que esta é a de número 15) e , pode parecer que estamos contentes por mais esta, mas vejam que sempre somos levados a elas. Seria tão mais fácil se pudéssemos terminar o ano letivo sem problemas, conforme nosso planejamento que nos tirou tantas horas de sono. Infelizmente somos forçados a nos desacomodar.
Hoje ouvi algo que me fez pensar muito sobre o poder das palavras e o significado que podem ter. Disseram-me que poucos professores estariam de braços cruzados. Eu gostaria de poder dizer que torço para que, realmente, poucos professores cruzem os braços, pois, para mim, cruzar os braços significa ignorar os apelos da classe e fazer o que é mais simples: ir dar aulas, de preferência aulas que não tenham nada a ver com o momento que vivemos, pois assim não há como entrar no assunto e discutir os acontecimentos. E deixar com que outros descruzem os braços por mim, deixar que outros gritem e levantem seus braços, enquanto faço de conta que nada disso é comigo.
Passamos por vários momentos cruciais durante a caminhada da educação pública estadual: o QPE, Quadro de Professor por Escola (quantos professores ficaram durante meses sem poder atuar porque estava reformando o quadro de pessoal e muitos professores foram forçados a ir atuar em municípios muito distantes do seu), depois o Calendário Rotativo (enquanto folgávamos em agosto, tínhamos que trabalhar durante o mês de janeiro, com todo o calor do verão), veio ainda o fim do nosso Plano de Carreira na era Brito (aliás, para onde foi todo o dinheiro das privatizações... será que algum professor chegou a ver a cor do dinheiro?), depois vieram lutas e mais lutas por melhores salários, pela organização e manutenção das escolas, para que não juntassem turmas(Lembram no ano passado?). Sempre procurando desestabilizar os professores. A cada final de ano vivemos incertezas para o ano seguinte. Cada governo que chega 'inventa' algo novo, novidades que vão minando as defesas da escola pública. Neste momento, voltamos a correr o risco de perder nosso plano de carreira sob alegação de que damos um custo muito alto à folha do estado, mesmo depois de vermos o salário da governadora e seus secretários reajustado em mais de cem por cento.
Não queremos 'empatar' a vida de ninguém, queremos apenas defender nossos direitos e nossa sobrevivência. Não somos professores por diversão(o que aliás está muito difícil!), mas precisamos resolver o mais rápido possível o impasse e possibilitar nosso fazer pedagógico de uma forma tranqüila e serena como deveria ser.
Tomara que poucos professores cruzem os braços!
Lajeado, 17/11/2008
Luciane Heffel de Oliveira
Publicado no jornal O Informativo do vale em 19/11/2008